Ano novo, vida nova?

Essa é uma das minhas épocas preferidas do ano. Os últimos dias de um e os primeiros do próximo; janeiro tem todo um gostinho especial para mim. Aquela sensação de deixar um ciclo importante para trás e poder fazer melhor e diferente nos próximos meses que se aproximam traz um quentinho ao coração. Os tais recomeços são, de fato, muito entusiasmantes.

Mas, pela primeira vez, eu senti tudo isso de forma diferente. Afinal, apesar de já não estarmos mais em 2020, seus estragos vieram conosco para 2021. Isso porque ainda enfrentamos uma pandemia, coisa que nem a magia de um ano novo foi capaz de curar. Somado a isso, a minha vida não mudou com a virada do calendário, pelo contrário: boa parte das coisas continua exatamente como estava no ano anterior, o que dificulta a tal virada de chave de que novas oportunidades estão por vir.

Por dias, fiquei estranha. Angustiada. Por diversas vezes, me perguntei se não havia algo de errado comigo; se eu não estava sendo pessimista demais. Me questionei algumas vezes: ”Mas Ano Novo não quer dizer vida nova?”. Porém, a verdade é que, mesmo me agarrando bem forte ao meu otimismo – algo que sempre tento trazer para a minha vida – e às minhas metas para 2021, todos esses sentimentos esquisitos insistiam em fazer morada dentro de mim. Foi aí que entendi: talvez eu devesse apenas aceitar.

Aceitar que, independente de ser um novo ano, algo muito maior que nós e que nossos desejos mais genuínos continua a nos perturbar. E isso nos tira o chão, nos tira planos e nos tira certezas que um dia julgamos ter. Portanto, decidi abraçar um início de fase sem muito ar de algo tão novo e empolgante assim. Decidi dançar conforme a música, mesmo que ela esteja alta demais e não seja uma das minhas preferidas.

Foi um início de ano aos trancos e barrancos, e tudo bem. Nem sempre Ano Novo significará vida nova. Mas um novo ano sempre significará novas oportunidades de viver e enxergar a vida de diferentes formas. E disso jamais abrirei mão!

Júlia Groppo

Por julia às 28.01.21 Comentários
O que você deixou cair pelo caminho?

Já parou para pensar no tanto de coisa que você pode ter deixado cair acidentalmente da sua bagagem enquanto percorre a sua jornada?

E aqui, não estou falando de bagagem emocional – coisa que, quanto menos a gente tiver, melhor -, mas sim da bagagem interna que forma quem você é e, principalmente, o que sempre desejou viver e conquistar.

Quando crianças, sonhamos com o mundo e com os papéis que queremos desempenhar nele. Deixamos nossa imaginação viajar longe. Já adolescentes, começamos a experimentar um pouco mais da vida através das nossas primeiras vezes e, muito pela pressão do tão temido vestibular, a também buscar quais profissões conversam com nossos maiores hobbies. Mas, conforme vamos crescendo, a impressão que tenho é de que, até para sobreviver neste mundo cada dia mais maluco, precisamos nos enrijecer. E, numa dessas, deixamos, sem ao menos nos darmos conta, caírem algumas partes de nós pelo caminho.

Aos poucos, vamos formando uma casca bem grossa em volta de nós mesmos, ou passamos a andar por aí com uma parte nossa faltando, o que pode resultar em um abandono de virtudes e sonhos que carregávamos durante toda a infância e adolescência. Afinal, nessas primeiras fases da vida, costumamos ser muito espontâneos, sinceros e criativos.

É por isso que tenho o hábito de revisitar a Júlia criança, ou até mesmo versões minhas do passado. Para não me perder de nenhuma delas, gosto de olhar fotos antigas, reler os diários que guardo com muito carinho, conversar com a minha mãe sobre como eu era nessas fases e até fazer um exercício de lembrar quais eram meus desejos mais profundos. E então, paro para pensar: eu já os conquistei, eles genuinamente mudaram ou eu apenas os deixei caírem por aí?

Se tem algo que sempre desejei manter guardado a sete chaves é a minha essência, coisa que, não importa por quantas fases passemos, diz muito sobre quem somos. Ela é a nossa bússola interna capaz de nos auxiliar a recalcular a rota sempre que necessário. Portanto, gosto de me fazer pensar nas coisas que, sem querer, posso ter deixado escapar pelo caminho. Seja por pressão social, após um trauma ou uma fase difícil, e até mesmo por acreditar que precisamos ser duros para sermos respeitados.

Sensível que sou, já cheguei a pensar que, para ser levada a sério – principalmente na minha carreira -, precisaria abandonar esse meu lado. Mas, graças a Deus, em um desses momentos de ”resgate de mim mesma”, entendi que eu poderia combinar minha sensibilidade à minha potência, conquistada através de todas as oportunidades que tive até aqui. E essa combinação tem me levado cada dia mais perto de quem sou.

É fato que somos metamorfoses ambulantes, ou seja, passamos por diversas mudanças ao longo da nossa trajetória. Mas numa dessas, podemos também deixar escapar pedacinhos nossos entre um tropeço e outro. Estes que, em algum momento, farão muita falta, pois fazem parte de quem somos e de tudo o que um dia sonhamos alcançar.

Tudo isso para chegar ao final do texto e te fazer a seguinte pergunta, que dá o título a este texto: o que você, que está lendo isso agora, deixou cair pelo caminho?

Júlia Groppo

Por julia às 13.01.21 300 comentários
Minha primeira tatuagem

Teve um dia que olhei para mim mesma (depois de muita terapia, voos e tropeços) e entendi que ali moravam diversas coisas. Nem somente boas, nem somente ruins, mas inteiramente minhas. E não é que tenha feito sentido, até porque, tenho pra mim que tem coisa que se fizer muito sentido, estraga. Mas se fez leve. 

Aos poucos, descobri que tem pergunta que é melhor nunca saber a resposta. Tem labirinto que vale a pena não encontrar a saída. Têm abismos nos quais é preciso nos lançarmos. E tem coisa que a gente só entende quando ilumina a própria sombra. 

E quando a gente descobre o quanto gosta de ser a gente, não há nada que nos pare. Porque mesmo quando tudo parece esquisito demais do lado de fora, a gente tem o lado de dentro para habitar. E que presente – e ao mesmo tempo desafio – é vasculhar cada canto. Essas coisas todas meio estranhas que formam quem a gente é, são, no fim das contas, a nossa arma mais potente para enfrentar a nossa própria existência. 

Foi então que percebi que não há nada mais genuíno que caminhar por aí sendo aquilo que exatamente se é. Dos pés à cabeça. Do coração à essência. Da alma ao espírito. O pacote completo da incompletude que só se cura vivendo. Só se cura sendo. 

Daí escolhi Simone (sim, a de Beauvoir) para registrar isso em mim. Marcar na pele o que meu peito grita já tem um tempo, por mais desafiador que possa ser.

“Eu aceito a grande aventura de ser eu mesma”.

E que aventura, amigos.

Júlia Groppo

Por julia às 13.01.21 21 comentários
Prometa-me desacostumar

Em um dia qualquer de 2020, me peguei desejando algo: que eu não me acostume, com nada nessa vida.

É que me dei conta, entre um devaneio e outro, que a gente se acostuma demais. Com as pessoas do nosso convívio, com a rotina de todo dia, com os cheiros e sabores preferidos. Com as belezas ao nosso redor, com as coisas que a gente faz porque gosta – e até com as que a gente faz mesmo sem gostar.

Que chato se acostumar com algo que pode ser sempre uma delícia de ver, ser, sentir ou fazer. Com algo que pode sempre colorir um pouco mais os nossos dias. É como um anestésico para a vida. Então, ali mesmo, firmei um compromisso comigo mesma: desacostumar e poder olhar para cada uma dessas coisas como se fosse a primeira vez. E que o que não é bom, mas virou costume, trate de virar passado. Porque se acostumar com o que é ruim é tão perigoso quanto se acostumar com o que é belo.

Hoje, gostaria de te convidar a fazer o mesmo. Prometa-me desacostumar. E eu te prometo uma vida com mais significado. Combinado?

Júlia Groppo

Por julia às 08.01.21 Comentários
O que aprendi com o meu filhote de cachorro

Tenho uma nova melhor amiga. Depois de alguns anos da partida do Melão, o último cachorro que tive, a Nicole chegou na família. Nunca tinha tido um filhote. Quando nasci, meus pais já tinham o Kiro, o primeiro cachorro com quem tive contato. Já o Melão foi encontrado na rua pelo meu avô e, na época em que o adotamos, a veterinária nos disse que ele já devia ter entre dois e três anos de idade.

Agora, com ela em casa, tudo está sendo novo. Cachorros dependem muito dos cuidados de seus donos, e um filhote requer isso em dobro. E foi vivendo todo esse processo e observando a Nicole que cheguei ao aprendizado deste texto.

É engraçado assistir um filhote dando os seus primeiros passos. E aqui, acredito que algumas mães podem concordar comigo quando o assunto são os bebês (salvas as proporções, é claro!). Tudo é novidade, qualquer novo passo é um desafio e qualquer descoberta vira motivo de felicidade – nossa e deles.

Observando a Nicole (sim, tenho passado boa parte do meu tempo fazendo isso rs), comecei a desejar que todos nós pudéssemos ser um pouco como ela durante toda a vida. Quando crianças, temos um olhar de desejo para o mundo, mas sem deixar de lado as pequenas (grandes) conquistas que estamos vivendo no presente.

Outra coisa que sinto que perdemos ao longo dos anos é a curiosidade. Apesar dessa ser uma característica bastante aguçada em mim – muito culpa da jornalista que habita aqui dentro, rs -, a correria do dia a dia e as milhares de responsabilidades escritas em uma agenda nos tiram uma energia valiosa: a de buscar o novo e o diferente, e principalmente a de nos encantar por todo esse processo.

Nos últimos meses, passei a refletir bastante sobre isso. Nicole me ensinou, sem ao menos saber, a lembrar mais da Júlia criança e usá-la como um norte para nunca me esquecer de que sempre teremos muito a buscar, conhecer e aprender neste mundo. E que então essa jornada deve ser gostosa e aproveitada como quem está dando os primeiros passos. Vivendo primeiras vezes.

Desejo que eu possa ser mais como ela, ou como a Júlia de muitos anos atrás. E desejo que você aí também consiga o mesmo.

Júlia Groppo

Por julia às 26.11.20 355 comentários
A felicidade é aqui (e agora)

Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas a verdade é que, se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos de fato. Sempre teremos a sensação de que falta algo. Você pode estar na praia mais paradisíaca, ou debaixo da Torre Eiffel. Pode estar olhando para o Big Ben ou caminhando pelas ruas de Nova York. De nada adianta percorrer lugares incríveis se você não carregar algo de bom dentro de si mesmo.

A magia da vida acontece de dentro para fora, e acredite: não há passagem aérea que resolva algo se internamente está tudo bagunçado e um tanto escuro. A felicidade mora no aqui e agora, não importa o quão tortuoso ele esteja; e a melhor viagem que você pode se dar é para o lado de dentro.

Então, a pergunta é: vamos ficar esperando até quando para sermos felizes? Quando conquistarmos o tal sonho? Quando conseguirmos a aprovação de uma determinada pessoa? Quando atingirmos aquela meta? Bobagem. Esqueça o ”quando” e ”onde”.

Ser feliz, para mim, se tornou um exercício diário, um desafio que me proponho em meio à rotina. Afinal, não dá tempo de esperar. Vai ver a gente nem sabe, mas, no fundo, não está esperando por nada. O que julgamos estar esperando, já está acontecendo. Bem debaixo do nosso nariz. Ou melhor: do nosso lado de dentro.

Percorra toda a sua jornada sem esperar que algum destino te faça feliz quando, na verdade, o lugar que deve fazer isso é exatamente onde você está. Aqui e agora.

Júlia Groppo 

Por julia às 25.11.20 78 comentários
A tal da criatividade

Preciso começar esse texto com uma pergunta simples, mas necessária: você se considera criativo(a)? Muitas pessoas vão responder com um sonoro ”não”, e confesso que já estou esperando por isso. Tudo porque uma grande maioria acredita que a criatividade é como algo mágico que surge em nossas mentes, de uma hora para outra, ou como um dom, com o qual você já deve nascer, caso contrário, não há solução.

A boa notícia é que, na verdade, a criatividade é para todos e está muito mais acessível do que imaginamos. Mas é preciso usar os estímulos certos em nosso dia a dia para, digamos, acessá-la.

Ao longo da minha vida, principalmente por conta dos caminhos que escolhi seguir na carreira, estive muito em contato com esse tema, e fui criando uma rotina que me ajudasse a desenvolver a minha criatividade todos os dias, ou ao menos criar armas para acessá-la sempre que necessário.

Hoje, quero compartilhá-las com você que está aí do outro lado e pode estar um pouco perdido no assunto:

  • Tenha um ”caderno de referências”
    Entre a minha infinita coleção de cadernos (adoro escrever à mão!), está o meu caderno de referências, onde costumo reunir frases inspiradoras – seja de filmes, livros, podcasts, cursos que eu faço, conversas que tenho com amigos etc. Aqui, o céu é o limite. Se você for mais fã das ferramentas digitais, experimente o aplicativo Google Keep ou mesmo o bloco de notas do seu celular. A ideia é reunir, em um mesmo lugar, frases e palavras que podem te dar uma dose extra de inspiração, principalmente em momentos do tão temido bloqueio criativo.
  • Saia da sua zona de conforto
    Apesar de importante, a rotina pode nos deixar acomodados e treinar o nosso cérebro para executar tarefas de uma mesma forma, todos os dias. Para estimular a mente, tente sair da zona de conforto com pequenos passos diários, como mudar a rota para chegar até o trabalho, inverter os horários de algumas tarefas da sua semana e explorar universos diferentes do seu. Se você é fã de livros de suspense, experimente ler um romance. Se é advogado, tente trocar uma ideia com um jornalista. E por aí vai.
  • Cultive momentos de ócio
    O tal do ”ócio criativo” é real, mas em um mundo onde somos cada dia mais pressionados a produzir o tempo inteiro, fica difícil colocar isso em prática, né? Porém, insisto em te pedir: separe momentos da sua rotina para fazer absolutamente nada, ou atividades mais tranquilas, como uma caminhada para contemplar a natureza, assistir uma série ou filme bem leve, praticar atividades manuais, ou seja, deixar a sua mente descansar e, quem sabe, vazia o suficiente para receber novas ideias e insights.

Espero ter ajudado! E se você tiver alguma dica valiosa, compartilha comigo.

Júlia Groppo

Por julia às 13.10.20 4.005 comentários
O ”ponto morto” da vida tem seu valor

2016 foi um daqueles anos da minha vida em que eu me vi numa queda de montanha-russa cheia de loopings. E com isso, não pensem que estou reclamando; pelo contrário. Todas as emoções que senti fizeram parte de grandes sonhos que pude realizar. O universo foi realmente muito bom comigo.

Entre uma realização e outra, a verdade é que acabei me acostumando a estar com a vida bastante movimentada, com coisas grandiosas acontecendo, uma atrás da outra. Aí veio 2017, o ano que decidiu me ensinar algumas coisinhas importantes. 

Ao voltar do meu intercâmbio, a vida deu uma bela sossegada, e eu, então, tive o desafio de descobrir que coisas lindas e gostosas também acontecem no seu, digamos, ”ponto morto”. E lá fui eu atrás de alegria e diversão nos tais dias comuns. Durante a semana, em uma terça-feira qualquer, em um momento da vida em que parece que nada está acontecendo. Mas só parece, porque a verdade é que sempre está.

Quando me vi entendiada e um tanto ansiosa, entendi que precisava aprender que a vida não é só o que acontece quando você está realizando sonhos – embora, sim, eles sejam muito valiosos para a nossa jornada. Ela é também o que você constrói até chegar a eles, e de que forma você decide percorrer esse caminho.

Podemos – e devemos! – buscar desafios. São eles que nos ajudam a conhecer novas facetas de nós mesmos. Mas não somente eles, pois, acreditem: o ponto morto da vida também tem o seu valor; e frio na barriga, assim como as borboletas no estômago, também são possíveis dentro dele, por mais paradoxal que isso possa soar. 

Naquele ano, me dei conta de que não é só fora da nossa zona de conforto que a magia acontece. Arrisco dizer, inclusive, que é dentro dela que é ainda mais desafiador enxergar belezas escondidas em nossa rotina, coisa que não falta!

Tive que aceitar que a vida não é uma eterna queda de montanha-russa. Fases mais calmas e sem nada muito extraordinário acontecendo também fazer parte. Afinal, para poder chegar na melhor parte do brinquedo, precisamos encarar uma enorme subida. Mas isso não quer dizer que ela precisa ser chata. Esse caminho todo pode ser bem divertido, se assim você permitir.

Júlia Groppo

Por julia às 23.09.20 3.938 comentários
Sobre fios, fases e metamorfoses

Tudo começou quando recebi a aprovação na faculdade de Jornalismo. Tinha passado por momentos desafiadores no Ensino Médio e senti – como nunca havia acontecido antes -, que precisava de um novo visual para dar ”olá” para a nova fase que me aguardava. Para quem tinha os fios até praticamente a cintura, cortar em uma altura um pouco abaixo dos ombros foi uma grande mudança. Aquela Júlia de 17 anos se sentiu bastante corajosa.

Enquanto meu cabeleireiro fazia o corte, me senti mais leve. E aqui, nem estou me referindo à maior praticidade que esse tipo de cabelo traz, mas sim a uma leveza interna. Era como se os fios que estavam caindo estivessem levando com eles tudo de ruim que havia acontecido até então, e que não valia a pena continuar morando dentro de mim; senti também serem levadas as partes boas de uma época da minha vida, mas que precisavam ficar no lugar que as pertencia: meu passado. Era preciso dar espaço para o que viria a seguir.

De lá para cá, a cada corte, o comprimento ia diminuindo. Foi então que me dei conta: cortar o meu cabelo é sempre como uma despedida deliciosa e necessária. Vezes dolorosa, mas sempre deliciosa e necessária. É como se eu despertasse de quem estava sendo até então para me tornar quem eu sou agora. Afinal, ao longo da nossa vida, passamos por diversas metamorfoses.

Dia desses, fiz mais um corte, talvez o mais curto de todos. E talvez, também, por representar uma das fases mais importantes e significativas que já vivi até aqui. O meu cabelo, por fim, é o meu jeito de dizer adeus para partes de mim que já não mais me pertencem. Mas é também como um lindo convite para tudo aquilo no que eu me transformei e que preciso apreciar. Cortar os meus fios é como dançar pelas mudanças constantes às quais somos submetidos, quer queiramos ou não, afinal, a única coisa que muda nesse jogo é o quanto você abraça essas mudanças (internas ou externas) e as usa ao seu favor.

Sempre brinco que a vida é curta demais para nos vermos no espelho sempre da mesma forma. Só de pensar em passar muito tempo sem me conhecer de diferentes maneiras, me dá arrepios. Gosto de apostar nas minhas próprias possibilidades, me (re)descobrir de quantas formas forem possíveis, e o meu cabelo, apesar de não ser a única, é, sem dúvidas, a principal delas.

Esteja ele mais longo ou mais curto, virado para a esquerda ou para a direita, uma coisa é certa: tem sempre algo acontecendo aqui, no lado de dentro, que me faz gritar para o lado de fora.

Júlia Groppo

Por julia às 26.08.20 3.955 comentários
Sobre rótulos e o despir-se socialmente

Criei uma nova regra para a minha vida. Aconteceu este ano (sim, 2020 não é só tragédia, e eu posso provar). Estava na minha primeira aula de teatro – na qual decidi me aventurar em busca de novas partes de mim mesma – quando, logo nos primeiros minutos, a professora nos disse que nossas apresentações se limitariam aos nomes. O primeiro, digo. Nada de sobrenome. Nem profissão, idade ou estado civil. 

Naquele momento, meu lado curioso – muito culpa da jornalista que habita em mim – se desesperou. A melhor parte dos cursos, palestras ou qualquer evento que participo sempre são as apresentações. Isso porque, mais que adorar gente, eu adoro saber o que essa gente faz. De onde vieram e para onde vão, sabe?! Logo a professora se explicou: não queria que cometêssemos o erro de colocarmos uns aos outros dentro de caixinhas sociais.

Achei tão genial que decidi trazer a prática para a minha vida. De lá para cá, é assim que tenho tentado olhar para as pessoas ao meu redor. Já reparou que a gente tem mania de logo perguntar a profissão? Tem mais graça saber a cor preferida, o melhor livro que já leu na vida ou se toma café com açúcar ou adoçante. Também acho que a gente precisa olhar para o outro além de qualquer rótulo.

Nessa brincadeira, é como se a gente estivesse nu, despido de qualquer coisa. Sem espaço para o nosso olhar treinado para achar ”isso” ou ”aquilo”. O famoso ‘’sem tempo, irmão’’ para qualquer crítica ou julgamento. Vejo também como uma oportunidade das grandes de nos aproximarmos de pessoas de universos diferentes dos nossos – coisa que dificilmente fazemos de maneira consciente, já que estamos sempre em busca dos nossos semelhantes.

Vai por mim: a conta emocional que se paga por viver debaixo de rótulos é grande. E os juros que se paga por olhar para o outro com esse olhar socialmente treinado é maior ainda.  A gente perde um tanto de tesouro escondido por quem passa por nós. Numa dessas, a gente para ali no ‘’advogado’’, ‘’enfermeira’’, ‘’professor’’, ‘’engenheira’’ e nem se dá conta do universo vasto e complexo que as pessoas carregam dentro de si. E era exatamente disso que a minha professora falava.

Não podemos parar. O diferente é bom. O olhar nu para o outro também. E, se a gente der sorte – e souber até dar o exemplo – o outro pode nos olhar dessa forma também.

Se você chegou até o final deste texto, caro leitor, prometo dividir essa regra – ou mesmo lema de vida – com você. Fique à vontade para despir-se de rótulos e seja (ainda mais) feliz.

Júlia Groppo

Por julia às 25.08.20 3.917 comentários

Ano novo, vida nova?
O que você deixou cair pelo caminho?
Minha primeira tatuagem
Prometa-me desacostumar