Minhas tempestades internas

Era uma segunda-feira, e chovia bastante lá fora. Apesar da vontade absurda de ficar em casa, entre minha coberta e meus livros, e do sapato molhado que ganhei no caminho do carro até o trabalho, notei que o meu coração batia leve e feliz. Confesso que nem eu sabia o tanto que gostava de dias chuvosos. Foi aí que entendi: assim como a chuva molhava o chão e limpava toda a cidade, eu sentia que as coisas estavam sendo limpas, também, dentro de mim.

Somos feitos de muitas coisas, e algumas delas são as nossas tempestades internas. Em um primeiro momento, tendemos a querer espantá-las, afinal, dizem por aí que não dá tempo de ser outra coisa a não ser feliz – e, cá entre nós, quem não ama um céu limpinho e azul? Mas eu aprendi a respeitar as minhas, assim como o meu tempo e as minhas confusões, e, vale dizer, até a gostar dessas companhias. É que eu entendi que somos uma bela combinação de luz e sombra, e que afastar o nosso lado mais escuro é andar por aí com uma parte nossa faltando. Também aprendi que a ordem de algumas coisas é inevitável: primeiro vem a chuva, depois o arco-íris, e eles são igualmente essenciais para a harmonia do universo.

Hoje, sei que as minhas tempestades levam embora tudo aquilo que já não cabe mais dentro do meu peito – e que sozinha eu talvez não conseguisse deixar ir embora. Por isso, deixo chover. Preciso desses ventos, raios e trovoadas para recalcular a minha própria rota. Lá fora, mesmo que molhe os meus sapatos, e aqui dentro, mesmo que por algum tempo exista um incômodo, sei que o universo está apenas me ajudando a repensar algumas coisas e, principalmente, a seguir com o que realmente importa.

Quero caminhar por aí, sobretudo, de cara e alma lavadas. É incrível saber que aprendi a dançar na minha própria chuva.

Júlia Groppo

Por julia às 11.02.20 54 comentários

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