Conselho de vó

Minha avó sempre me aconselhou, desde pequena, a ouvir mais e falar menos. Passei a maior parte da minha infância em sua casa, e era comum ela cantar uma música bem fofa sobre isso, na tentativa de me ensinar desde menina o dom da escuta. Mas a verdade é que, ansiosa que sou (e que sempre fui), sempre tive dificuldade de colocar o tal ensinamento em prática.

Até hoje, me pego atropelando palavras e tropeçando nos meus próprios diálogos, tudo em uma pressa gigante de me expressar. Para piorar, tratei de me formar como jornalista e me apaixonar ainda mais em me comunicar. Só que levo a sério demais esse negócio de ”conselho de vó” para simplesmente deixar para lá, então, nunca me esqueci desse ensinamento. Levo ele comigo mesmo sendo um grande desafio segui-lo.

Acontece que, ultimamente, tenho entendido mais a minha avó. Escutar é uma prática tão importante quanto falar. Afinal, para contar boas histórias, primeiro é preciso aprender a ouvi-las. Com os nossos ouvidos, é necessário captar a essência mais pura daqueles fatos. Gosto de me descrever como uma escritora em busca de histórias que merecem ser contadas, e é por isso que tenho exercitado cada dia mais essa prática.

Também acredito que ouvir o que o outro tem a dizer é como um pequeno presente que você dá a ele. Já parou para pensar que, em muitos momentos, as pessoas querem apenas serem ouvidas, desabafar sem que alguém as interrompa, numa tentativa de tirar o que está pesando o peito?

Vai por mim: conselho de vó a gente leva a sério. Fico feliz por estar, finalmente, conseguindo fazer o que minha vó sempre me disse (e repete até hoje!). Numa dessas, além de aliviar pesos que as pessoas ao meu redor podem estar carregando, sigo colecionando boas histórias que me comprometi a contar. Afinal, se tem algo que eu acredito com força é que, no fim das contas, todas as histórias perdidas por aí merecem ser contadas.

Júlia Groppo

Por julia às 20.07.20 Comentários

Deixe seu comentário

A tal da criatividade
O ”ponto morto” da vida tem seu valor
Sobre fios, fases e metamorfoses
Sobre rótulos e o despir-se socialmente