E se a gente tivesse tempo?

Nos últimos meses, tenho visto muitas pessoas tirarem desejos do papel. Colocado em prática sonhos, metas e necessidades que estavam já há um tempo esperando por elas, esquecidas em meio ao caos da rotina e gritando por um espacinho no calendário. De faxinar o quarto a lançar um projeto. E me incluo nisso. Foi aí que me perguntei: por que nós não estávamos fazendo essas coisas antes?

A reflexão se estendeu por dias. Será que realmente estamos tendo mais tempo livre durante a pandemia que estamos enfrentando, ou finalmente percebemos que estávamos usando o nosso tempo da forma errada? E com ”forma errada”, quero dizer que talvez estivéssemos investindo as nossas valiosas horas em coisas que não nos fazem tanto sentido. E se a gente tivesse esse tempo que sempre acha que não tem, mas, no fundo, sempre teve? E se estávamos nos afogando em meio a obrigações e necessidades que nem fomos nós quem criamos para nós mesmos?

Parece que, de repente, o tempo que faltava até ontem a gente criou para viver um hoje mais gostoso, com mais significado. Mais de acordo com o que realmente nos faz feliz e com o que de fato conversa com a nossa essência. Estarmos trancados em alguns metros quadrados nos fez mergulhar fundo para dentro. Investigar incômodos e vontades que viviam anestesiados pela correria da rotina.

Eu fico feliz. Por mim mesma, por você que está lendo este texto agora e por todos aqueles que estão tendo a oportunidade de ressignificar seus calendários, rotinas e afazeres. Ressignificando tempo e espaço. Sei que não são todos que possuem esse privilégio, afinal, essa pandemia tem atingido as pessoas nas mais diferentes formas – e tenho ciência de que faço parte dessa tal parcela privilegiada. Mas é justamente por ter essa chance bem nas minhas mãos que não quero deixá-la passar.

Se o hoje é, de fato, tudo o que temos, por que continuar a vivê-lo sem tempo para as coisas que mais gostamos? Um tempo que, no fundo, a gente sabe que tem. Portanto, ajuste o seu relógio interno. Recalcule a rota. Reveja a sua rotina. Tire os sonhos da gaveta. E agarre com todas as forças o que te faz sentir vivo entre os segundos que correm rápido pelo relógio.

Que seja cada vez mais doce, verdadeiro e leve. Sempre leve.

Júlia Groppo

Por julia às 03.08.20 Comentários

Deixe seu comentário

A tal da criatividade
O ”ponto morto” da vida tem seu valor
Sobre fios, fases e metamorfoses
Sobre rótulos e o despir-se socialmente