Sobre rótulos e o despir-se socialmente

Criei uma nova regra para a minha vida. Aconteceu este ano (sim, 2020 não é só tragédia, e eu posso provar). Estava na minha primeira aula de teatro – na qual decidi me aventurar em busca de novas partes de mim mesma – quando, logo nos primeiros minutos, a professora nos disse que nossas apresentações se limitariam aos nomes. O primeiro, digo. Nada de sobrenome. Nem profissão, idade ou estado civil. 

Naquele momento, meu lado curioso – muito culpa da jornalista que habita em mim – se desesperou. A melhor parte dos cursos, palestras ou qualquer evento que participo sempre são as apresentações. Isso porque, mais que adorar gente, eu adoro saber o que essa gente faz. De onde vieram e para onde vão, sabe?! Logo a professora se explicou: não queria que cometêssemos o erro de colocarmos uns aos outros dentro de caixinhas sociais.

Achei tão genial que decidi trazer a prática para a minha vida. De lá para cá, é assim que tenho tentado olhar para as pessoas ao meu redor. Já reparou que a gente tem mania de logo perguntar a profissão? Tem mais graça saber a cor preferida, o melhor livro que já leu na vida ou se toma café com açúcar ou adoçante. Também acho que a gente precisa olhar para o outro além de qualquer rótulo.

Nessa brincadeira, é como se a gente estivesse nu, despido de qualquer coisa. Sem espaço para o nosso olhar treinado para achar ”isso” ou ”aquilo”. O famoso ‘’sem tempo, irmão’’ para qualquer crítica ou julgamento. Vejo também como uma oportunidade das grandes de nos aproximarmos de pessoas de universos diferentes dos nossos – coisa que dificilmente fazemos de maneira consciente, já que estamos sempre em busca dos nossos semelhantes.

Vai por mim: a conta emocional que se paga por viver debaixo de rótulos é grande. E os juros que se paga por olhar para o outro com esse olhar socialmente treinado é maior ainda.  A gente perde um tanto de tesouro escondido por quem passa por nós. Numa dessas, a gente para ali no ‘’advogado’’, ‘’enfermeira’’, ‘’professor’’, ‘’engenheira’’ e nem se dá conta do universo vasto e complexo que as pessoas carregam dentro de si. E era exatamente disso que a minha professora falava.

Não podemos parar. O diferente é bom. O olhar nu para o outro também. E, se a gente der sorte – e souber até dar o exemplo – o outro pode nos olhar dessa forma também.

Se você chegou até o final deste texto, caro leitor, prometo dividir essa regra – ou mesmo lema de vida – com você. Fique à vontade para despir-se de rótulos e seja (ainda mais) feliz.

Júlia Groppo

Por julia às 25.08.20 45 comentários

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