Sobre fios, fases e metamorfoses

Tudo começou quando recebi a aprovação na faculdade de Jornalismo. Tinha passado por momentos desafiadores no Ensino Médio e senti – como nunca havia acontecido antes -, que precisava de um novo visual para dar ”olá” para a nova fase que me aguardava. Para quem tinha os fios até praticamente a cintura, cortar em uma altura um pouco abaixo dos ombros foi uma grande mudança. Aquela Júlia de 17 anos se sentiu bastante corajosa.

Enquanto meu cabeleireiro fazia o corte, me senti mais leve. E aqui, nem estou me referindo à maior praticidade que esse tipo de cabelo traz, mas sim a uma leveza interna. Era como se os fios que estavam caindo estivessem levando com eles tudo de ruim que havia acontecido até então, e que não valia a pena continuar morando dentro de mim; senti também serem levadas as partes boas de uma época da minha vida, mas que precisavam ficar no lugar que as pertencia: meu passado. Era preciso dar espaço para o que viria a seguir.

De lá para cá, a cada corte, o comprimento ia diminuindo. Foi então que me dei conta: cortar o meu cabelo é sempre como uma despedida deliciosa e necessária. Vezes dolorosa, mas sempre deliciosa e necessária. É como se eu despertasse de quem estava sendo até então para me tornar quem eu sou agora. Afinal, ao longo da nossa vida, passamos por diversas metamorfoses.

Dia desses, fiz mais um corte, talvez o mais curto de todos. E talvez, também, por representar uma das fases mais importantes e significativas que já vivi até aqui. O meu cabelo, por fim, é o meu jeito de dizer adeus para partes de mim que já não mais me pertencem. Mas é também como um lindo convite para tudo aquilo no que eu me transformei e que preciso apreciar. Cortar os meus fios é como dançar pelas mudanças constantes às quais somos submetidos, quer queiramos ou não, afinal, a única coisa que muda nesse jogo é o quanto você abraça essas mudanças (internas ou externas) e as usa ao seu favor.

Sempre brinco que a vida é curta demais para nos vermos no espelho sempre da mesma forma. Só de pensar em passar muito tempo sem me conhecer de diferentes maneiras, me dá arrepios. Gosto de apostar nas minhas próprias possibilidades, me (re)descobrir de quantas formas forem possíveis, e o meu cabelo, apesar de não ser a única, é, sem dúvidas, a principal delas.

Esteja ele mais longo ou mais curto, virado para a esquerda ou para a direita, uma coisa é certa: tem sempre algo acontecendo aqui, no lado de dentro, que me faz gritar para o lado de fora.

Júlia Groppo

Por julia às 26.08.20 48 comentários

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