Aprendi vivendo com a vida – por Bruna Gomes
bruna gomes

Foto: @blogdabru

Eu era só uma menina cheia de planos quando comecei a estudar para o vestibular. Tinha sonhos, ou melhor, ideias do que eu poderia fazer da vida ou de como gostaria que meu futuro fosse. Não sei dizer o que me guiou para o jornalismo. Aconteceu. É assim mesmo que sinto. Num piscar de olhos eu já tinha certeza absoluta que era isso que eu queria estudar. O mais curioso sobre mim é que, às vezes, fixo o pensamento em um objetivo sem saber de sua origem. Pode ser que esse objetivo tenha nascido há muito tempo; pode ser que para outras pessoas já estivesse claro; mas eu mesma, quem mais deveria entender de si própria, não tinha a menor noção. Até visitei a faculdade de medicina da USP para ver se me abria os olhos para outras áreas. Mas nem um brilho de excitação passou pelos meus olhos. Eu simplesmente sabia: eu seria jornalista.

Depois de alguns meses estudando, veio a provação – também conhecida como vestibular. Eram provas e mais provas, testes, simulados, muitos estudos e só o que me passava pela cabeça era a Faculdade Cásper Líbero. Cheguei até a grudar uma foto da fachada na parede, ao alcance dos meus olhos, para que eu não me esquecesse dos meus objetivos: estudar naquela instituição de ensino. E então, veio uma decepção seguida de uma boa notícia. Não havia passado na Cásper, mas havia sido aprovada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, faculdade em que uma das minhas melhores amigas também havia entrado. Era a vida me dizendo, sem que eu percebesse, para eu limpar as lágrimas e aproveitar.

Foram quatro anos de descobertas. Eu era uma desbravadora de um ambiente cheio de pegadinhas e caminhos tortos. Pessoas, provas e um ambiente tão grande que era necessário olhar no mapa. Professores rígidos, muito estudo, festas, bares, meninos bonitos e amigas maravilhosas. Fui escalando, correndo, pulando – era quase um crossfit da vida real (no sentido literário, claro). Mas posso dizer com grande certeza que, sim, cresci. Tive que aprender a cozinhar, decorei nomes de produtos de limpeza, limpei banheiro, lavei pilhas imensas e assustadoras de louça, mas sobrevivi aos afazeres domésticos. Sobrevivi também às temidas dependências (DPs). Tive a sorte e a persistência de não pegar nenhuma.

Era uma fase diferente da outra. Cada semestre era um recomeço tão assustador e promissor quanto o outro. Eu fui corajosa. Namorei, desnamorei, morri de amores, vi pessoas ao meu redor morrendo de amores. Ajudei amigas e fui ajudada. Contemplei a melhor vista com o melhor pôr-do-sol de todo o bairro. Fiz graça e palhaçada para que as pessoas esquecessem suas dores. Fizeram graça e palhaçada para que eu tivesse a possibilidade de esquecer as minhas.

No quarto e último ano, o terrível Trabalho de Conclusão de Curso começou a aparecer durante a noite para assobiar nos meus ouvidos e me causar uma insônia sem igual. Depois de uns meses, ele dormia comigo; ocupava tanto espaço dentro de uma kitnet minúscula que eu tinha que sair para respirar. Precisava do ar que o trabalho estava me sugando. Aos olhos dos outros, novamente, era tempestade em copo d’água. Aos meus, angústia. Mas me colocava para escrever todo santo dia. Entre livros, blog, reuniões com o orientador, ponte Campinas-Sorocaba, lá estava eu, remando ao encontro do meu diploma.

Em julho, tive uma trégua, das mais valiosas que eu poderia conceber. Fui ao velho continente. Estudei inglês em Londres, com os melhores amigos estrangeiros que eu poderia ter encontrado. Estudei moda com as asiáticas mais talentosas que já havia conhecido. Andei com os olhos nos grandes prédios que compunham as ruas daquela cidade. Se para os outros era cinza, para mim era feita de glitter, dos mais brilhantes, dos mais dourados, dos multicoloridos. Londres me fascinou. Foram 28 dias andando nas nuvens e nos metrôs, de ponto turístico em ponto turístico, de café em café, de felicidade em felicidade.

Já em dezembro e no Brasil, ao entregar o trabalho final e apresentá-lo, caí de mais um degrau que eu havia colocado: não estava em êxtase como havia imaginado. Achava que aquilo seria maravilhoso, que Deus daria play em alguma música dançante e que haveria chuva de papel picado. Bobagem. Apenas passei a me cobrar pela falta de trabalho e pela falta de independência que tanto imaginei que teria após os quatro anos de estudo e dedicação.

No entanto, o que eu não imaginava (olha só a vida me ensinando novamente), era que eu precisava voltar. Precisava de uma pausa para entender tudo o que estava acontecendo. Era essencial que eu pisasse na vida adulta e conseguisse um trabalho sabendo que, chegar até ali, não havia sido fácil. Tudo isso seria valioso para que eu pudesse dar um grandioso início ao resto da minha vida.

Pode ser que meus sonhos mudem. Pode ser que eles tomem formas que nunca imaginei que tomariam. Posso até estudar profissões diferentes. Posso ser o que eu quiser! Sei que, a cada dia que piso para fora da cama, chego mais perto de algo bom que vai acontecer. Torço por mim. Projeto meus objetivos para fora das ideias e os concebo no mundo real. Posso vê-los tão claramente quanto vejo um objeto à minha frente. É claro… Tão claro que se torna cristalino. Assim como, com toda a certeza, eu sempre soube que seria jornalista, eu sei que serei feliz e que ficarei satisfeita com o futuro que bate à minha porta.

Com amor,

Bruna Gomes

Por julia às 28.01.16 716 comentários

Comments are closed.

Portas abertas
Vidas editadas
Sobre lugares que nos (re)conectam com nós mesmos
25