Toda adolescente dos anos 2000 que assistiu à comédia romântica ”De repente 30” – estrelada pela maravilhosa Jennifer Garner – já se sentiu frustrada ao menos uma vez ao ver a sua vida chegando cada vez mais perto dessa idade e se dar conta de que (quase) nada é como parece que seria. Pudera: os 30 anos, muito por conta desse filme, foram coroados com a promessa perigosa de que essa fase da vida chegaria com tudo a nosso respeito muito bem resolvido: carreira em ascensão, vida pessoal nos trilhos, conta bancária de dar inveja e boa parte dos nossos sonhos mais lindos realizados.
Não faz muito tempo que me tornei uma das coisas que eu mais temi nos últimos anos: uma jovem adulta que está mais próxima dos 30 anos que dos 20. Dramas a parte, os meus 27 estão batendo na porta e esse é um dos maiores fantasmas que têm me assombrado nos últimos aniversários. É assustador ver os vinte e poucos se afastando e pensar que estou cada dia mais perto da tal ”idade do sucesso” bem diferente do que a minha versão mais jovem sonhava – e com mais perguntas que respostas fazendo morada em mim.
Ao me dar conta disso, tive que desconstruir cada uma das fabulosas ideias que eu passei a adolescência inteira construindo na minha cabeça, na perfeita harmonia que faziam no meu fantástico mundo das ideias. É curioso pensar sobre o meu medo de crescer e perceber, ao mesmo tempo, que foi justamente a passagem dos anos que me deu a liberdade que eu tanto desejei: reconhecer a minha própria receita de vida e entender que esse script pronto e milimetricamente perfeito sobre chegar aos 30, na verdade, não me interessa. O tão temido tempo foi (e segue sendo) um ingrediente essencial para eu perceber qual é, para mim, a vida que vale a pena ser vivida dia após dia.
Conforme ele passava, eu fui entendendo exatamente o que me distanciava das personagens dos filmes da Disney e de Hollywood e de suas vidas tecnicamente perfeitas. Descobri também – com ajuda de muita análise, é claro – que a receita para ter alguma espécie de sucesso aos 30 anos é muito pessoal, muda com o passar do tempo e pode ser muito mais simples que parece. Pra variar, é mais uma daquelas coisas que a gente complica por acreditar que existe alguma receita mágica por aí que deve ser seguida. E que, quando a gente encontra uma, acha que qualquer mínimo detalhe que fuja daquilo parece errado demais para fazer algum sentido.
É claro que a minha vida ao me aproximar dos 30 anos não estaria nem perto do que estou acostumada a ver em filmes desse tipo até hoje – porque, sim, eu sigo assistindo toda e qualquer comédia romântica com roteiros duvidosos sempre que posso. A verdade é que muitas das coisas que são bem comuns nesses enredos eu sequer quero para mim mesma e é libertador quando você se dá conta de que nem tudo sobre as vidas estampadas em capas de revistas, nas redes sociais, nos filmes ou séries têm a ver com o que é sucesso para você.
Mas a liberdade de ser quem se é tem um preço e é por isso que, nos últimos tempos, me percebi (imersa nesse oceano de reflexões) vivendo uma espécie de luto da pessoa que eu jurava que seria com 20 e muitos para dar espaço para aquela que eu realmente sou. É como se eu estivesse me despedindo de uma pessoa irreal para finalmente abraçar a pessoa que eu sou. Que eu dou conta de ser através de tudo o que faz de mim a Júlia. Afinal, entre o que eu sonho para mim e o que a minha realidade me permite existe um abismo chamado vida do qual ninguém consegue sair ileso.
Fato é que, ao entender que viver é melhor que sonhar, a gente aprende a adaptar os nossos sonhos e a dançar conforme a música que a vida coloca pra gente dançar. Nem sempre acertamos os passos de primeira, mas é certo que se entregar a eles rende novos e belos movimentos que você sequer sabia que existiam. Dos preços que eu estou disposta a pagar pelo simples (e abençoado) fato de estar viva, o de bancar quem eu sou é um dos quais eu mais me dedico, ainda que ele seja bem alto.
Ao invés de olhar para o espelho e achar que devo me odiar em algum nível por não ser exatamente aquilo que eu passei anos da minha adolescência imaginando, prefiro aprender a amar a Júlia que eu construí até aqui, pois eu sei o quanto ela é valiosa e, mais ainda, tudo o que chegar até ela me custou.
Não quero sobreviver a quem eu sou. Quero, na verdade, aproveitar cada segundo de mim. Dos meus 20 e muitos e, daqui pra frente, os anos todos.
A idade do sucesso, afinal, é aquela que você finalmente descobre a receita do seu.
Júlia Groppo









