Vinte e sete

Vinte e sete anos
Ou primaveras
Ou voltas ao sol
Ou vidas inteiras
Numa só

Ou tudo isso
E ainda pouco 
Perto do que falta
Mas muito 
Se comparado a como eu sinto os anos passando por mim 
Ou melhor
Me atravessando 

Vinte e sete anos. 
Gosto de quem eu sou – e este é o meu maior feito até aqui. Ninguém pode vê-lo, mas eu posso senti-lo e isso tem bastado em um nível quase inexplicável. Para uma ariana nata, algo bastar é raro. Mas quando acontece, é graça divina. 

Não quero me esquecer nunca dessa sensação boa que é se sentir feliz na própria pele. Porque mesmo quando me rasgo na intensidade que me habita, me remendo com minha própria fantasia por acreditar que a experiência de estar viva pode ser sempre mais. 

Guimarães Rosa fala que quem elegeu a busca não pode recusar a travessia. Eu não sou nem louca de duvidar, pelo contrário: sinto que elegi algum tipo de busca muito doida sobre a vida e sigo nessa travessia intensa que ela é. A diferença é que os últimos anos me trouxeram a maturidade de saber fazer desse percurso uma deliciosa aventura. 

Não estive em tantos lugares assim do mundo até aqui, mas já estive em tantos lugares de mim mesma que perdi as contas. Por vezes afundei nas minhas próprias profundezas – é perigoso pensar demais, mas esse segue sendo o meu esporte preferido. 

Quando retomei o fôlego, entendi: o mundo não dá pé pra quem gosta de viver de significados. 

Vinte e sete anos e sinto que nunca estive tão longe das idealizações e tão perto da minha essência. Alívio. Vinte e sete anos e me agarro nas minhas certezas sabendo que elas têm prazo de validade, mas com alegria de quem sabe também que, assim que eu as perder de vista, tenho um universo inteiro de chances de buscar por novas. E eu as encontro. Se não, as crio. 

Vinte e sete anos e parece que foi ontem. 

Vinte e sete anos e eu quero pintar e bordar por mais uns oitenta. O futuro que a gente tanto sonha só existe se a gente continuar caminhando. 

Vinte e sete anos e contando. Não os anos; os suspiros. 

Júlia Groppo

Por julia às 25.04.23 Comentários

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