O ”ponto morto” da vida tem seu valor

2016 foi um daqueles anos da minha vida em que eu me vi numa queda de montanha-russa cheia de loopings. E com isso, não pensem que estou reclamando; pelo contrário. Todas as emoções que senti fizeram parte de grandes sonhos que pude realizar. O universo foi realmente muito bom comigo.

Entre uma realização e outra, a verdade é que acabei me acostumando a estar com a vida bastante movimentada, com coisas grandiosas acontecendo, uma atrás da outra. Aí veio 2017, o ano que decidiu me ensinar algumas coisinhas importantes. 

Ao voltar do meu intercâmbio, a vida deu uma bela sossegada, e eu, então, tive o desafio de descobrir que coisas lindas e gostosas também acontecem no seu, digamos, ”ponto morto”. E lá fui eu atrás de alegria e diversão nos tais dias comuns. Durante a semana, em uma terça-feira qualquer, em um momento da vida em que parece que nada está acontecendo. Mas só parece, porque a verdade é que sempre está.

Quando me vi entendiada e um tanto ansiosa, entendi que precisava aprender que a vida não é só o que acontece quando você está realizando sonhos – embora, sim, eles sejam muito valiosos para a nossa jornada. Ela é também o que você constrói até chegar a eles, e de que forma você decide percorrer esse caminho.

Podemos – e devemos! – buscar desafios. São eles que nos ajudam a conhecer novas facetas de nós mesmos. Mas não somente eles, pois, acreditem: o ponto morto da vida também tem o seu valor; e frio na barriga, assim como as borboletas no estômago, também são possíveis dentro dele, por mais paradoxal que isso possa soar. 

Naquele ano, me dei conta de que não é só fora da nossa zona de conforto que a magia acontece. Arrisco dizer, inclusive, que é dentro dela que é ainda mais desafiador enxergar belezas escondidas em nossa rotina, coisa que não falta!

Tive que aceitar que a vida não é uma eterna queda de montanha-russa. Fases mais calmas e sem nada muito extraordinário acontecendo também fazer parte. Afinal, para poder chegar na melhor parte do brinquedo, precisamos encarar uma enorme subida. Mas isso não quer dizer que ela precisa ser chata. Esse caminho todo pode ser bem divertido, se assim você permitir.

Júlia Groppo

Por julia às 23.09.20 Comentários
Sobre fios, fases e metamorfoses

Tudo começou quando recebi a aprovação na faculdade de Jornalismo. Tinha passado por momentos desafiadores no Ensino Médio e senti – como nunca havia acontecido antes -, que precisava de um novo visual para dar ”olá” para a nova fase que me aguardava. Para quem tinha os fios até praticamente a cintura, cortar em uma altura um pouco abaixo dos ombros foi uma grande mudança. Aquela Júlia de 17 anos se sentiu bastante corajosa.

Enquanto meu cabeleireiro fazia o corte, me senti mais leve. E aqui, nem estou me referindo à maior praticidade que esse tipo de cabelo traz, mas sim a uma leveza interna. Era como se os fios que estavam caindo estivessem levando com eles tudo de ruim que havia acontecido até então, e que não valia a pena continuar morando dentro de mim; senti também serem levadas as partes boas de uma época da minha vida, mas que precisavam ficar no lugar que as pertencia: meu passado. Era preciso dar espaço para o que viria a seguir.

De lá para cá, a cada corte, o comprimento ia diminuindo. Foi então que me dei conta: cortar o meu cabelo é sempre como uma despedida deliciosa e necessária. Vezes dolorosa, mas sempre deliciosa e necessária. É como se eu despertasse de quem estava sendo até então para me tornar quem eu sou agora. Afinal, ao longo da nossa vida, passamos por diversas metamorfoses.

Dia desses, fiz mais um corte, talvez o mais curto de todos. E talvez, também, por representar uma das fases mais importantes e significativas que já vivi até aqui. O meu cabelo, por fim, é o meu jeito de dizer adeus para partes de mim que já não mais me pertencem. Mas é também como um lindo convite para tudo aquilo no que eu me transformei e que preciso apreciar. Cortar os meus fios é como dançar pelas mudanças constantes às quais somos submetidos, quer queiramos ou não, afinal, a única coisa que muda nesse jogo é o quanto você abraça essas mudanças (internas ou externas) e as usa ao seu favor.

Sempre brinco que a vida é curta demais para nos vermos no espelho sempre da mesma forma. Só de pensar em passar muito tempo sem me conhecer de diferentes maneiras, me dá arrepios. Gosto de apostar nas minhas próprias possibilidades, me (re)descobrir de quantas formas forem possíveis, e o meu cabelo, apesar de não ser a única, é, sem dúvidas, a principal delas.

Esteja ele mais longo ou mais curto, virado para a esquerda ou para a direita, uma coisa é certa: tem sempre algo acontecendo aqui, no lado de dentro, que me faz gritar para o lado de fora.

Júlia Groppo

Por julia às 26.08.20 3.955 comentários
Sobre rótulos e o despir-se socialmente

Criei uma nova regra para a minha vida. Aconteceu este ano (sim, 2020 não é só tragédia, e eu posso provar). Estava na minha primeira aula de teatro – na qual decidi me aventurar em busca de novas partes de mim mesma – quando, logo nos primeiros minutos, a professora nos disse que nossas apresentações se limitariam aos nomes. O primeiro, digo. Nada de sobrenome. Nem profissão, idade ou estado civil. 

Naquele momento, meu lado curioso – muito culpa da jornalista que habita em mim – se desesperou. A melhor parte dos cursos, palestras ou qualquer evento que participo sempre são as apresentações. Isso porque, mais que adorar gente, eu adoro saber o que essa gente faz. De onde vieram e para onde vão, sabe?! Logo a professora se explicou: não queria que cometêssemos o erro de colocarmos uns aos outros dentro de caixinhas sociais.

Achei tão genial que decidi trazer a prática para a minha vida. De lá para cá, é assim que tenho tentado olhar para as pessoas ao meu redor. Já reparou que a gente tem mania de logo perguntar a profissão? Tem mais graça saber a cor preferida, o melhor livro que já leu na vida ou se toma café com açúcar ou adoçante. Também acho que a gente precisa olhar para o outro além de qualquer rótulo.

Nessa brincadeira, é como se a gente estivesse nu, despido de qualquer coisa. Sem espaço para o nosso olhar treinado para achar ”isso” ou ”aquilo”. O famoso ‘’sem tempo, irmão’’ para qualquer crítica ou julgamento. Vejo também como uma oportunidade das grandes de nos aproximarmos de pessoas de universos diferentes dos nossos – coisa que dificilmente fazemos de maneira consciente, já que estamos sempre em busca dos nossos semelhantes.

Vai por mim: a conta emocional que se paga por viver debaixo de rótulos é grande. E os juros que se paga por olhar para o outro com esse olhar socialmente treinado é maior ainda.  A gente perde um tanto de tesouro escondido por quem passa por nós. Numa dessas, a gente para ali no ‘’advogado’’, ‘’enfermeira’’, ‘’professor’’, ‘’engenheira’’ e nem se dá conta do universo vasto e complexo que as pessoas carregam dentro de si. E era exatamente disso que a minha professora falava.

Não podemos parar. O diferente é bom. O olhar nu para o outro também. E, se a gente der sorte – e souber até dar o exemplo – o outro pode nos olhar dessa forma também.

Se você chegou até o final deste texto, caro leitor, prometo dividir essa regra – ou mesmo lema de vida – com você. Fique à vontade para despir-se de rótulos e seja (ainda mais) feliz.

Júlia Groppo

Por julia às 25.08.20 3.917 comentários
E a lista de metas do ano?

Tenho uma pergunta importante para te fazer. Você ainda se lembra das metas que escreveu para 2020? 

Já passamos da metade do ano, e é bastante comum que, a essa altura do campeonato, você já tenha se esquecido de algumas delas ou mesmo deixado outras para trás. Isso porque, com a correria do dia a dia, acabamos por ser engolidos pela rotina. Este ano, a situação está ainda mais desafiadora, já que uma pandemia nos pegou de surpresa e mudou, sem nem pedir licença, muitos dos nossos planos. 

É por isso que decidi compartilhar algumas dicas pessoais de como resgatar esses desejos que você escreveu lá no início de 2020. Vamos lá?

1) Reveja as suas metas (sempre que possível)

Por muito tempo, eu escrevia as minhas metas e as deixava guardadas dentro de uma gaveta. Lá elas ficavam durante todo o ano, e só as via novamente no meu ritual de Ano Novo, onde costumo fazer um balanço de tudo o que escrevi e do que consegui realizar. O problema é que, com o passar dos meses, muitas coisas iam acontecendo e tirando a minha atenção de todos aqueles itens especiais que eu queria realizar nos próximos 365 dias. Natural, pois a vida acontece e, em muitas das vezes, de maneiras que não estávamos esperando.

Percebi que, para não me esquecer dos meus principais objetivos para o ano, eu precisava deixá-las em um lugar visível, e acessá-las sempre que possível. Para mim, funciona bastante checá-las todo mês e toda semana, que é quando sento para montar os meus planejamentos. Outra dica é deixá-la dentro da sua agenda – um lugar que você abre todos os dias – ou mesmo colada em algum canto especial do seu quarto. Lembrar a nós mesmos de forma frequente onde queremos chegar é um incentivo bastante importante e traz uma dose extra de inspiração.

2) Desapegue e ressignifique

Não se identifica mais com alguma meta? Eu te asseguro: está tudo bem mudar de ideia e não querer mais realizar algo que antes parecia importantíssimo para você. O tempo passa e a gente muda, assim como as nossas prioridades e sonhos. Apenas tente entender o motivo de não querer mais realizar tal meta e se certifique de que você está deixando isso para trás por uma vontade própria, e não por desânimo ou opiniões alheias.

Aprenda também a ressignificar aquelas que, por mais que você queira muito realizar, talvez tenha que deixar para depois, já que muitos dos nossos planos precisaram ser pausados devido ao coronavírus. E, por favor, não se culpe, afinal, nenhum de nós estava contando com esse enorme imprevisto. Aproveite para, quem sabe, fazer um planejamento de como conseguir realizá-la no próximo ano.

3) Transforme as suas metas em mini-metas

Esse conselho é valioso e aprendi com a jornalista e coach Bruna Fioreti, de quem sou uma grande fã. A ideia é que você divida as suas metas do ano em mini-metas mensais, semanais e diárias. Explico: nossos objetivos não serão conquistados da noite para o dia, mas sim com pequenos passos e esforços diários que vamos criando em direção a eles. Portanto, separe momentos da sua rotina para escolher uma meta e elencar todas as pequenas ações que você pode dar até que a conclua. Assim, você está criando um panorama realista para si mesmo, o que vai te ajudar, aos pouquinhos, a chegar onde você deseja.

E aí, gostou das dicas? Se tiver alguma para compartilhar, comente aqui!

Júlia Groppo

Por julia às 06.08.20 3.995 comentários
E se a gente tivesse tempo?

Nos últimos meses, tenho visto muitas pessoas tirarem desejos do papel. Colocado em prática sonhos, metas e necessidades que estavam já há um tempo esperando por elas, esquecidas em meio ao caos da rotina e gritando por um espacinho no calendário. De faxinar o quarto a lançar um projeto. E me incluo nisso. Foi aí que me perguntei: por que nós não estávamos fazendo essas coisas antes?

A reflexão se estendeu por dias. Será que realmente estamos tendo mais tempo livre durante a pandemia que estamos enfrentando, ou finalmente percebemos que estávamos usando o nosso tempo da forma errada? E com ”forma errada”, quero dizer que talvez estivéssemos investindo as nossas valiosas horas em coisas que não nos fazem tanto sentido. E se a gente tivesse esse tempo que sempre acha que não tem, mas, no fundo, sempre teve? E se estávamos nos afogando em meio a obrigações e necessidades que nem fomos nós quem criamos para nós mesmos?

Parece que, de repente, o tempo que faltava até ontem a gente criou para viver um hoje mais gostoso, com mais significado. Mais de acordo com o que realmente nos faz feliz e com o que de fato conversa com a nossa essência. Estarmos trancados em alguns metros quadrados nos fez mergulhar fundo para dentro. Investigar incômodos e vontades que viviam anestesiados pela correria da rotina.

Eu fico feliz. Por mim mesma, por você que está lendo este texto agora e por todos aqueles que estão tendo a oportunidade de ressignificar seus calendários, rotinas e afazeres. Ressignificando tempo e espaço. Sei que não são todos que possuem esse privilégio, afinal, essa pandemia tem atingido as pessoas nas mais diferentes formas – e tenho ciência de que faço parte dessa tal parcela privilegiada. Mas é justamente por ter essa chance bem nas minhas mãos que não quero deixá-la passar.

Se o hoje é, de fato, tudo o que temos, por que continuar a vivê-lo sem tempo para as coisas que mais gostamos? Um tempo que, no fundo, a gente sabe que tem. Portanto, ajuste o seu relógio interno. Recalcule a rota. Reveja a sua rotina. Tire os sonhos da gaveta. E agarre com todas as forças o que te faz sentir vivo entre os segundos que correm rápido pelo relógio.

Que seja cada vez mais doce, verdadeiro e leve. Sempre leve.

Júlia Groppo

Por julia às 03.08.20 4.055 comentários
Você se faz feliz?

Sempre brinco que é muito fácil eu me fazer feliz. E nem é só pelo fato de que as pequenas coisas me encantam, mas também porque, há alguns anos atrás (mais precisamente em 2015), uma época da minha vida em que eu estava entediada com tudo, decidi fazer um pacto comigo mesma. Mais que chateada, eu estava cansada de me sentir daquela forma. 

Foi aí que, como num basta, decidi prometer a mim mesma: faria algo por mim todos os dias dali pra frente. Não iria dormir sem ter feito ao menos uma coisinha que eu gosto. 

O doce preferido após o jantar. Algumas páginas de um livro novo. Um episódio da série favorita. Um passeio pelo shopping. Um delivery do restaurante predileto. E por aí vai! A verdade é que não importa muito o que seja, desde que você não se esqueça de dar ouvidos e espaço na sua rotina à pessoa mais importante da sua vida: você. E que, nesse caminho construído diariamente, consiga se conhecer cada vez mais. 

De lá pra cá, sigo colecionando os meus pequenos respiros diários (como carinhosamente decidi chamar esses momentos). Afinal, eu sou o meu compromisso mais importante e sincero. Confesso que também já faz um tempo desde que a ideia de deixar para ser feliz amanhã, no final de semana ou quando eu alcançar algum sonho ou meta parou de fazer sentido para mim. E graças a Deus, porque a verdade é que a nossa vida está o tempo todo acontecendo. Todos os dias. E quero me fazer feliz em cada um deles.

E você, já se perguntou o quanto tem se feito feliz? 

Júlia Groppo

Por julia às 03.08.20 4.144 comentários
Conselho de vó

Minha avó sempre me aconselhou, desde pequena, a ouvir mais e falar menos. Passei a maior parte da minha infância em sua casa, e era comum ela cantar uma música bem fofa sobre isso, na tentativa de me ensinar desde menina o dom da escuta. Mas a verdade é que, ansiosa que sou (e que sempre fui), sempre tive dificuldade de colocar o tal ensinamento em prática.

Até hoje, me pego atropelando palavras e tropeçando nos meus próprios diálogos, tudo em uma pressa gigante de me expressar. Para piorar, tratei de me formar como jornalista e me apaixonar ainda mais em me comunicar. Só que levo a sério demais esse negócio de ”conselho de vó” para simplesmente deixar para lá, então, nunca me esqueci desse ensinamento. Levo ele comigo mesmo sendo um grande desafio segui-lo.

Acontece que, ultimamente, tenho entendido mais a minha avó. Escutar é uma prática tão importante quanto falar. Afinal, para contar boas histórias, primeiro é preciso aprender a ouvi-las. Com os nossos ouvidos, é necessário captar a essência mais pura daqueles fatos. Gosto de me descrever como uma escritora em busca de histórias que merecem ser contadas, e é por isso que tenho exercitado cada dia mais essa prática.

Também acredito que ouvir o que o outro tem a dizer é como um pequeno presente que você dá a ele. Já parou para pensar que, em muitos momentos, as pessoas querem apenas serem ouvidas, desabafar sem que alguém as interrompa, numa tentativa de tirar o que está pesando o peito?

Vai por mim: conselho de vó a gente leva a sério. Fico feliz por estar, finalmente, conseguindo fazer o que minha vó sempre me disse (e repete até hoje!). Numa dessas, além de aliviar pesos que as pessoas ao meu redor podem estar carregando, sigo colecionando boas histórias que me comprometi a contar. Afinal, se tem algo que eu acredito com força é que, no fim das contas, todas as histórias perdidas por aí merecem ser contadas.

Júlia Groppo

Por julia às 20.07.20 15 comentários
De mãos dadas comigo mesma

Dia desses, em uma conversa com a minha mãe, comecei a pensar em todas as coisas que teria deixado de fazer na minha vida se tivesse ficado esperando algum tipo de validação alheia, de quem quer que fosse. Em meio a um grande estalo, notei que teria deixado de viver as melhores experiências que já tive até então. E, olha, preciso dizer: que libertador é se dar conta de que você está vivendo abraçado a sua própria essência.

Em meio a um suspiro de alívio e gratidão a mim mesma, segui refletindo sobre o assunto pelo resto do dia, e me agradeci por mais muitas vezes. Se eu tivesse dado ouvidos aos olhares meio tortos e palavras atravessadas perante algumas das minhas decisões, cá estaria eu: em harmonia total com aqueles a minha volta, mas em completa desarmonia comigo. O que, só de imaginar, chega a me dar arrepios.

Descobri que é exatamente assim que quero seguir caminhando: de mãos dadas comigo mesma; com quem sou e com os desejos mais genuínos que carrego. Tudo o que coabita aqui dentro. Abraçar bem forte cada uma das minhas escolhas, afinal, se eu não for fiel a mim mesma, quem mais o seria?

É verdade que é bem fácil os nossos sonhos se esbarrarem nas opiniões dos outros. Somos seres sociais e nossas vontades podem se misturar às daqueles a nossa volta. Mas é preciso sempre recalcular a nossa rota interna e ser o mais honesto possível com nós mesmos. A resposta para tudo isso, acreditem, é uma só: a essência. Sempre a essência.

Espero me lembrar disso todos os dias e poder suspirar aliviada mais um tanto de vezes ao recordar todos os momentos em que decidi me dar as mãos e não soltar por nada. Desejo que eu e você possamos olhar pra trás e agradecer a nós mesmos por todas as vezes em que fomos e viemos, sobretudo, porque assim queríamos.

Júlia Groppo

Por julia às 15.04.20 4.078 comentários
O processo (é o que mais) importa

Imagine a seguinte cena: você de um lado, seu maior sonho do outro e, em meio a vocês, um precipício. Pode parecer assustador, ainda mais para um coração ansioso como o meu, mas tenho entendido (a duras penas) que a graça de tudo está justamente nesse tal precipício que a gente evita pular. Porque alcançar os nossos sonhos pode ser bem incrível, mas tudo o que a vida nos reserva entre onde estamos e onde queremos chegar pode ser ainda mais. Isso porque ela sabe das coisas.

É comum que todo esse percurso nos pareça medonho e que depositemos mais valor na tal da chegada que no caminho que vamos percorrer até lá, mas estamos cansados de ouvir por aí: o destino não é o que mais importa, mas a caminhada que se faz até ele. Pode (e vai!) soar como clichê, eu sei, mas eu sou grata diariamente por cada um deles, e este é apenas mais um dos que eu agarro com todas as forças quando percebo o meu coração agoniado pelo que está por vir. Pelas curvas, desvios e saltos que me serão propostos. Por todos os precipícios que eu terei que pular.

A gente quer sempre ”chegar lá”, mas nos esquecemos que o caminho vai dizer muito mais sobre a nossa vida que o que finalmente acontecerá quando alcançarmos o outro lado. Gosto de chamá-lo carinhosamente de processo, e acredito que o mais importante seja estarmos cada dia mais abertos ao que ele nos preparar. Afinal, a sua vida não é o que o acontece quando você realiza um sonho (embora eles sejam muito importantes e valiosos para a nossa jornada!). Ela é, principalmente, o que você constrói até chegar a eles. Porque ela está o tempo todo acontecendo.

Júlia Groppo

Por julia às 31.03.20 4.072 comentários
O que aprendi com o coronavírus

É fato que esse cenário tenso no qual estamos inseridos está apenas começando. Longe de mim ser pessimista (faço mais o tipo insuportável-de-tão-otimista), mas segundo estimativas, teremos alguns meses pela frente para enfrentar esse tal de coronavírus. Apesar disso, as últimas semanas já renderam muitas reflexões para mim. Pude reunir uma coleção valiosa de aprendizados que acho legal compartilhar mesmo que ainda tenhamos uma longa caminhada nos esperando. Afinal, são eles que vão nos fortalecendo em meio a todo esse caos.

Eu acredito fielmente que em tudo nessa vida há proveito. E se estamos sendo colocados à prova, que seja para sairmos mais fortes e conscientes desse desafio.

Nem sempre é sobre a gente. Às vezes, é sobre o outro.

Tenho pra mim que se essa vida fosse apenas sobre encontrar o nosso propósito, alcançar o nosso próprio sucesso e ponto, haveria apenas um de nós habitando essa Terra. Acontece que, se dividimos o mesmo espaço, é porque somos não apenas companheiros de caminhada, mas uma peça-chave na jornada um do outro. Essa situação tem nos mostrado o quanto o conceito de colaboração é essencial. Então, não se esqueça de olhar para os lados e perceber que talvez alguém esteja precisando mais de você que você de qualquer outra coisa. O que nos leva ao próximo aprendizado.

Precisamos reconhecer e aprender com os nossos privilégios

É verdade que estamos todos no mesmo barco enfrentando essa pandemia, mas digamos que esse barco está dividido em setores, e nem todos têm acesso a todos eles. Para ficar mais simples, pensemos em um voo: alguns ficam na classe econômica. Outros, na executiva. E alguns sequer chegam a embarcar no avião, pois viajar não é uma realidade. Entendem?

Todos nós estamos sendo atingidos pelo coronavírus e sofrendo suas consequências, mas elas são diferentes, e olhar ao redor e nos darmos conta dos nossos inúmeros privilégios (como poder fazer home office, estar perto da família, ter uma reserva de dinheiro para sobreviver à instabilidade dos próximos meses etc.) é reconhecer que vivemos em uma sociedade desigual. Do alto dos nossos privilégios, precisamos frear os julgamentos e entender de que forma podemos ajudar os menos favorecidos. É hora (já passou, na verdade) de sair da bolha!

Não temos o controle das coisas

No fundo, nós sempre soubemos disso, mas é algo que nos esquecemos com facilidade (eu sempre! rs). Em muitos momentos da vida, insistimos em acreditar que podemos controlar alguma coisa. Mas aceitar que não temos o controle de uma situação é muito importante para focarmos nossos esforços no que de fato importa, que são as soluções que, dentro desse cenário, estão ao nosso alcance. Pensemos o seguinte: o que podemos fazer por nós mesmos, pelos que amamos e pelo mundo neste momento?

Não dá para deixar nada para amanhã: nem amar, nem os nossos sonhos e muito menos ser feliz

Lembra dos planos que você fez para os próximos meses? E das coisas que você tem adiado já há um tempo? Das mais simples pendências aos nossos maiores sonhos, estamos sempre ”deixando para amanhã”, um hábito muito comum em uma sociedade que tem uma rotina sufocante e julga nunca ter tempo para nada.

”Amanhã eu faço”, ”amanhã eu ligo”, ”amanhã eu falo”, ”mês que vem eu começo”, ”ano que vem eu viajo”. Acontece que esse amanhã está totalmente comprometido, e nunca vimos nossos planos serem pausados/adiados/cancelados de forma tão brusca. Portanto, não deixe para amanhã, porque ele pode, de fato, não existir. A vida é agora e está o tempo todo acontecendo. Ligue, diga o que sente, perdoe, faça a viagem que tanto quer, invista em si mesmo e nos seus sonhos. Hoje.

As pequenas coisas importam

Estar com quem amamos. Almoços em família. Passear no shopping, ir ao cinema ou ao seu restaurante favorito. Abraçar as pessoas. Fazer uma caminhada ao ar livre. Tocar objetos sem medo. Para mim, as pequenas coisas sempre tiveram grande valor, e eu sou uma defensora árdua delas. Mas quando eu achava que já sabia muito bem o tanto que elas me faziam feliz, a vida mostrou ainda mais o quanto me são essenciais. Eu mal posso esperar para ter a minha rotina de volta e ainda mais para abraçar todos aqueles que eu amo e convivo. Como diz a minha mãe, a vida é feita no dia a dia, e a sua importância nunca esteve tão óbvia para nós.

Juntos somos (muito) mais

Em poucos dias, vi nascer diferentes redes de apoio, de pequenos empreendedores que estão trocando dicas sobre como manter o negócio em pé à noivas que estão trocando desabafos por terem tido os casamentos adiados. E por aí vai. Assistindo a tudo isso, pude concluir, mais uma vez, que juntos temos o poder de revolucionar, seja o que for. Que união, colaboração e cooperação são palavrinhas mágicas e podem nos levar além.

Em tudo há proveito

É como eu disse anteriormente: nada nessa vida é em vão, portanto, saber fazer do limão uma limonada e do caos uma oportunidade é um desafio e tanto, mas necessário e muito válido. Pare por alguns minutos e tente fazer ao menos uma reflexão de todo esse cenário que estamos enfrentando. Duvido você não chegar a ao menos uma conclusão, seja sobre você mesmo, seja sobre nós, como sociedade. Boa ou ruim, ela te mostrará que algo precisa ser mudado.

Criatividade e resiliência

Essas são duas palavrinhas que gosto muito, e que de certa forma se completam. Resiliência ”é a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.”. Já a criatividade vem como uma parceira que nos ajuda a enfrentar essas tais adversidades sem deixar a peteca cair.

Nesse sentido, vi empresas (das micro às grandes) se reinventarem em poucos dias. E isso vale também para cada um de nós, que estamos tendo que repensar a nossa rotina e rever os planos que tínhamos traçado. Numa dessas, concluímos mais uma vez que o ser humano é totalmente adaptável.

Somos uma construção sem fim (e temos muito o que melhorar como nação!)

Aqui, são dois aprendizados em um. É muito importante termos a consciência que nunca seremos bons o bastante a ponto de nunca mais termos o que aprender e melhorar; duvido você não ter chegado à conclusão de pelo menos uma coisa na qual pode ser melhor daqui pra frente. Além disso, estamos assistindo o desempenho de governantes que foram colocados à prova diante de uma situação que ninguém esperava, ou seja, é importante olharmos de forma crítica para aqueles que estão no poder e repensar nossas escolhas.

Um dia de cada vez

Por fim, este que é um dos meus mantras de vida preferidos fez-se uma verdade ainda maior ao olharmos para o futuro e sequer sabermos quando poderemos estar juntos novamente. Viver um dia de cada vez e aproveitá-lo em sua completude é um dos meus clichês favoritos, afinal, por mais difícil que seja aceitar, esse vírus nos mostrou que o amanhã não nos pertence. Bem diante dos nossos olhos, vimos o nosso 2020 e todos os seus planos serem interrompidos. E uma das saídas para não sucumbirmos à ansiedade, acredito eu, é, de fato, viver as angústias e pequenas alegrias de hoje, deixando para amanhã o que cabe somente ao amanhã resolver.

Felizmente, não é todo dia que somos tomados por pandemias, mas uma vez assolados por essa, estamos entendendo (a duras penas!) que não precisamos esperar por catástrofes para decidirmos de uma vez por todas agarrar o nosso hoje e tudo o que ele envolve, fazendo o que está ao nosso alcance. Amar é uma dessas coisas. Fazer a diferença no mundo também.

E seguimos, pois há muito pela frente. O importante é que o nosso olhar esteja bem atento e o nosso coração um tanto aberto. E, claro, que continuemos em casa (se possível!) e lavemos muito bem as mãos.

Júlia Groppo

Por julia às 23.03.20 Comentários

Celebrando minha existência
A tal da missão de vida
Desafiando minha rotina
Ano novo, vida nova?