A natureza me faz lembrar que horas são dentro de mim.
O canto dos pássaros, o balançar das árvores, a beleza das flores. As diferentes cores do céu (às vezes num só dia), as folhas caindo, a brisa leve – que chega sempre em momentos oportunos como quem traz um recado: você é um corpo vivo, pulsante, em movimento; mas tem seu próprio tempo.
Faz alguns anos que um incômodo interno enorme me fez perceber que esse mundo acelerado não combina comigo; mas é recente o fato de ter aceitado isso. Sou do tipo que demora para processar as coisas – de piadas bobas aos sentimentos mais complexos que brotam aqui dentro. Não sou a mais sintonizada nos memes do momento, tampouco consigo dar conta de todas as demandas que a minha própria vida me exige. Vez ou outra coloco o mundo no mudo para aumentar o volume das vozes internas. A verdade é que me sinto completamente deslocada em meio a tanta pressa.
Gosto de olhar nos olhos; me demorar nas conversas; não ver o tempo passar; respirar fundo; me perceber viva.
Esse estranhamento com as demandas de um mundo tão veloz me fez entender que eu tenho um tempo muito próprio para digerir o que vejo, ouço e sinto; especialmente o que sinto. Por um longo período (mais do que eu gostaria), me senti atrasada. Mas neste mundo acelerado onde pareço estar sempre perdendo hora para alguma coisa, aprendi a buscar a natureza para relembrar que horas são dentro de mim.
Entendi, afinal, que os ponteiros do meu relógio são os meus sentimentos. E sei que, se eu estiver caminhando no compasso da minha essência, jamais perdei um segundo sequer de quem sou.
Júlia Groppo









