Sobre o dia em que aprendi a amar as minhas dúvidas

Tudo começou com uma nova fase da minha vida. Tomei uma decisão que bagunçou o rumo de muitas coisas, me fazendo mudar até de endereço. A vida estava morna demais, algo que eu, particularmente, detesto, e eu sentia que precisava dar alguns passos para trás para que fosse possível dar um verdadeiro salto para frente. E lá fomos nós: eu, algumas malas, muitas caixas, medos, lembranças, certezas (que mais tarde eu descobriria que não eram tão certezas assim!) e muitas, mas muitas dúvidas.

O problema da liberdade é que ela vem carregada de muitas responsabilidades. Então, a cada escolha que fazemos (ou as que deixamos de fazer), nos tornamos completamente responsáveis pelos resultados, sejam eles bons ou ruins. E era justamente isso que eu temia. Não cheguei a uma decisão de maneira aleatória, mas mesmo tendo concluído que precisava abraçar aquela oportunidade, o medo ainda tomava conta de mim. E não é para menos: mudar é difícil. E, naquele momento, a minha escolha incluía mudar de endereço, de área de atuação e de estilo de vida, tudo de uma vez só.

A verdade é que eu estava bem ansiosa para descobrir o quanto conseguiria bancar essa tal escolha, principalmente por ela estar cercada por dúvidas e mais dúvidas a respeito dos meus próximos passos e por saber os desafios que eu teria pela frente, dentro e fora de mim. Comecei, então, a dar os meus primeiros passos naquele novo cenário. Mas quanto mais eu caminhava acreditando piamente que logo encontraria as minhas respostas, em mais dúvidas eu tropeçava. Eram muitas perguntas, e elas se revezavam na minha mente e começaram a se acumular no meu coração. Quando dei por mim, eu tinha uma verdadeira coleção delas.

Foi então que, em meio ao meu desespero por respostas que pareciam nunca chegar, uma pessoa me deu um conselho valioso que eu tratei de transformar em poesia e que trago comigo todos os dias, desde então: ”Júlia, antes de querer encontrar respostas, aprenda a viver as suas perguntas”. Levei alguns dias para entendê-lo, é verdade, mas eis que em algum momento tudo fez sentido: dúvidas, de certa forma, também funcionam como respostas e têm muito a nos dizer. Sobre nós, sobre a nossa história, sobre nossos medos e também sobre a vida. Elas funcionam como verdadeiras bússolas, por mais paradoxal que possa parecer.

Dúvidas nos ajudam a sair do lugar, ir em busca do novo e testar diferentes maneiras de viver a vida. Afinal, se tem uma coisa da qual a vida é recheada, é de possibilidades. Largar toda a estabilidade que eu havia construído até aquele momento e encarar uma nova cidade, um novo trabalho, uma nova área de atuação, uma nova rotina e, pior, vários dos meus monstros internos, foi um verdadeiro presente que dei a mim mesma para que a vida ganhasse novos sentidos. Para que eu pudesse enxergar que todas as dúvidas e respostas que habitam em mim têm o seu valor, mesmo que sejam passageiras.

Hoje posso dizer que aprendi a amar as minhas dúvidas tanto quanto algumas certezas que descobri sobre mim mesma, e posso afirmar que não tenho mais tanta pressa assim em me despedir delas. Afinal, são essas mesmas dúvidas que têm trazido movimento para a minha vida e que me dão um certo entusiasmo que eu acho essencial para construir a minha jornada (lembra que eu disse que detesto sequer imaginar viver uma vida morna?). São elas que me sacodem sempre que a zona de conforto fica confortável demais. São elas que dão sentido a tantas coisas que ainda sonho viver e experimentar nesse mundo. Respostas não me dariam isso.

Minhas dúvidas me deixam ser ou deixar de ser, me dando chances e mais chances para uma vida imensa e nada linear.

Júlia Groppo

Por julia às 29.07.21 Comentários

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