Sobre filtros e histórias

Dia desses, assistindo a um episódio de um podcast cuja convidada era a Graziela Gonçalvez – popularmente conhecida como ”Grazon” e ex-esposa do cantor Chorão -, ouvi algo que me colocou a pensar por longos minutos. Para quem não sabe, em 2018, a Grazi publicou a obra ”Se não eu, quem vai fazer você feliz?”, um livro onde ela conta a sua história de amor com o artista. Ao ser questionada sobre as maiores dificuldades que enfrentou para escrever a obra, Grazi disse que, ao expor a sua história ali, em sua versão, sabia que ela passaria pelo filtro de cada uma das pessoas que a lesse, o que faria com que elas a interpretessam e, posteriormente, contassem a partir desse filtro, da maneira que quisessem.

Sou fã da Grazi e de como ela conduziu todo esse processo da escrita e, mais ainda, do lançamento desse livro. Já o li três vezes e recomendo fortemente para os amantes de grandes histórias de amor e para os fãs da banda Charlie Brown Jr. Como ela mesma relata no podcast, foi preciso muito cuidado para contar uma história que ela viveu com alguém que não está mais aqui para se defender e ter a chance de dar a sua versão dos fatos. Afinal, já ouviu falar que toda história tem três lados: o de uma pessoa, o da outra e a verdade? Pois é.

Mas voltando à reflexão que me trouxe até este texto, fiquei pensando sobre esse tal filtro que ela comentou, que cada um de nós tem e que nos faz enxergar a vida de maneiras muito diferentes. Esse filtro, acredito eu, envolve muitas questões: nosso julgamento, os valores sob os quais escolhemos viver, a criação que recebemos da nossa família, a maneira como enxergamos o mundo, o que discernimos como certo e errado, entre tantas outras variáveis. E isso é muito particular e intransferível. É por isso que, quando decidimos dividir a nossa história com alguém, precisamos estar preparados para a maneira como essa pessoa pode interpretar tudo aquilo. É daí, acredito eu, que nascem os conflitos. Somos diferentes uns dos outros, com princípios, bagagens e vivências muitas vezes antagônicos.

Então, essas pessoas vão ter a sua própria leitura de quem nós somos e do que vivemos, absorvendo aquilo da maneira que puderem e quiserem, considerando todas as suas intenções e limitações. Nunca, jamais, alguém saberá 100% do que você está contando que viveu, pois só você viveu completamente e verdadeiramente aquilo. Só você estava lá para saber cada detalhe e para entender porquê as coisas aconteceram da maneira que aconteceram, tudo isso sob um olhar muito único para a vida: o seu olhar.

É por isso que, cada vez mais, tenho me dedicado a me libertar da opinião alheia. Não faz sentido nos colocarmos à mercê desses filtros, pois a nossa história merece ser respeitada primeiramente por nós mesmos e, sinceramente, os outros só saberiam exatamente o que nós vivemos se estivessem em nosso lugar.

Espero que tenha feito sentido para você que está lendo da mesma maneira que fez para mim.

Júlia Groppo

Por julia às 11.01.22 Comentários

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