Não importa o destino: viagens são sempre um reencontro com nós mesmos

Aprender a acolher todos os nossos sentimentos, dos mais estranhos aos mais banais, certamente não é uma tarefa fácil. Mas, sem dúvidas, é também uma decisão essencial para que a gente possa seguir pela vida “apesar de”. Para que a gente entenda, de uma vez por todas, que alegria e tristeza coexistem em meio às tantas entranhas que circulam pelo nosso corpo. 

Viajar, por exemplo, nos tira da nossa realidade por alguns dias. Nos retira da rotina com a qual estamos tão acostumados e nos presenteia com novas paisagens, pessoas, sotaques, aromas, sabores e jeitos de levar a vida muitas vezes completamente opostos ao que os nossos cinco sentidos conheceram até hoje. Ainda assim, é você ali. O mesmo de sempre. Que, sim, muda um pouquinho todos os dias (principalmente após esse tipo de experiência), mas que tem um coração, uma mente e uma alma que já passaram por muitos embarques e desembarques de vida até ali. Que, desde que chegaram a este mundo, estão vivendo e morrendo em um eterno revezamento que o ser e o estar nos exigem. 

Não é só com aquela bagagem de roupas e acessórios minimamente planejada para aqueles dias de viagem que você está, mas também com a tal da bagagem emocional. A gente viaja desejando deixar tudo para trás, nem que seja por alguns dias. Já aconteceu comigo, e tenho certeza que com você também. Mas se a gente tá indo, significa que, inevitavelmente, estamos levando quem somos junto. A roupa do corpo, as da mala, mas também as tantas roupagens com as quais revestimos o coração durante todo esse tempo. 

Já questionei a mim mesma uma vez em meio a uma dessas viagens: “Como posso estar triste neste lugar lindo, onde tanto desejei passar alguns dias?”. E a resposta veio rapidamente, como um presente do universo sobre algo que eu precisava muito aprender: na vida, não é possível pausar quem somos e todos os atravessamentos que estamos sempre enfrentando.

Então, o que fiz naquele momento foi aproveitar, da maneira que eu podia, aquele presente. Não perdendo o meu tempo tentando inutilmente expulsar uma emoção que estava fazendo morada em mim por questões pessoais que uma passagem aérea infelizmente não resolve sozinha, mas sim focando em curtir mesmo tendo aquela companhia do lado de dentro do peito.

Eu descobri, naquele dia, naquela viagem, que é possível viajar para novos destinos, ou simplesmente entre os dias da minha vida, dando espaço para que a alegria e a tristeza habitem seus lugares dentro de nós sem uma ferir a outra. Sem que cada uma delas tente ocupar espaços que não lhes pertencem e, assim, fingir taparem buracos que só vão ficando cada vez mais fundos. Aprendi que não importa o destino: viagens são sempre um reenconro com nós mesmos.

Sua verdadeira casa sempre será você. Você pode estar no escritório do trabalho, na casa dos seus pais, na praia mais paradisíaca, em barzinhos com melhores amigos. Ali, você apenas está. Dentro de nós é que estamos sempre sendo.

E é por isso que, seja em São Paulo ou na Espanha, em Gramado ou no Alasca, no Espírito Santo ou em Marrocos, eu desejo que saibamos ser um lar cada vez mais confortável para nós mesmos, permitindo habitar do lado de dentro tudo aquilo que genuinamente sentimos.

Júlia Groppo

Por julia às 25.05.22 Comentários

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